O garoto de 17 anos
Com 17 anos, eu era o garoto de 17 anos. Talvez a ausência de aspas deixe uma impressão de obviedade na frase. Mas aos 17 anos eu era admirável. Não me faltavam descobertas, a cada dia, a cada hora, a cada instante. Parecia que, passados 17 anos, havia chegado o momento de descobrir o mundo. Ou, então, que finalmente eu havia ganhado esta capacidade. Quando criança, você tem respostas pra tudo. Mas na adolescência e perto da fase adulta, se enche de dúvidas irrespondíveis.
E procurando respostas, eu ultrapassava a barreira do permitido para um garoto de 17 anos. Barreira esta que pra mim era invisível, pois estava num contínuo processo de aprendizado. E não ter liberdade era limitar meu conhecimento.
Aos 17 anos eu podia quase tudo. Desejava chegar aos 18 para não ter mais as limitações da idade. Ou da falta de idade. Embora deva admitir que a irresponsabilidade fosse exercida com uma preocupação menor. "Eu só tenho 17 anos, afinal". Era sempre meu álibi.
De posse de minha carteira de identidade, que indicava na data de nascimento que eu possuía apenas 17 anos, fui barrado em alguns lugares, mas minha sagacidade típica dos 17 anos logo me fez descobrir o uso prático do termo "falsidade ideológica". Ainda que o rosto me denunciasse às vezes.
Sem pretensão alguma, descobri talentos que não imaginava ter. Resolvi expô-los aos olhos do mundo, ainda inseguro pela inexperiência. E fui bem recebido, até com ceticismo. "Mas você só tem 17 anos? Duvido!" Não ousava retrucar, tomava como elogio. Elogios sempre precedidos da seguinte frase: "Thiago Fialho, de apenas 17 anos..". Elogios que, acumulados, inflavam-me o ego, tornavam-me até um pouco pedante em alguns momentos.
“Venha cá, quero apresentar-lhe o responsável por aquele blog famoso”. “Ah sim, o garoto de 17 anos?”. Com apenas 17 anos, realizar sonhos só exigia esforço. Pois não eram impossíveis, só precisavam de tempo. E tempo não me faltava, ao que resolvi desperdiçá-lo sem tomar consciência do desperdício. "Coisa de adulto neurótico", pensava.
Passado o primeiro momento de excitação, vi que nada tinha de genial. Com 17 anos, até o que fazia de medíocre parecia extraordinário. Receava que a exaltação não viesse pelo talento, mas pela idade. "Você tem futuro!", era o que me diziam. Desejei, então, que o futuro chegasse o mais rápido possível. Que meus 17 anos ficassem pra trás, pois decerto aos 20 eu finalmente atingiria meu ápice do sucesso e estaria à altura das pessoas de mais idade. Passei a odiar ser tão jovem, um mero adolescente. Pedi que o tempo não demorasse a passar.
Eu tinha 17 anos. Apenas 17 anos.
Somente 18.
Nada mais que 19.
20, ainda.
*
21. Vinte e um.
A irresponsabilidade já não é apropriada pra minha idade. Trabalhar não é desejo ou opção, é obrigação. "É preciso ser alguém na vida!". O que seria eu, então? Sob olhares de reprovação, falam-me até em necessidade de contribuir com a sociedade, mas preocupar-me só comigo já tem sido uma dura tarefa. Há quem chame de egoísmo, egocentrismo. Mas como ajudar ao próximo deixando de lado a si próprio?
Minha auto-estima se tornou dependente de louvores pra não passar fome, quase ameaçada de despejo quando por ocasião dos piores momentos de amargura. Já não há tanta exaltação dos meus feitos e o razoável é apenas razoável, não é distorcido. Buscar respostas não é mais mera satisfação da curiosidade, é a salvação do risco da ignorância.
O agora ganhou mais peso que o amanhã e a esperança deu lugar à aflição. Se antes a dúvida era quando meu futuro glorioso iria chegar, hoje o que me ocorre é o medo e a vontade de nem perguntar: "O que será de mim?".
21 anos.
Que me lembram..
Os sonhos não conquistados.
Os amores postergados.
A vida em sua plenitude, que, em alguns momentos, parece ter sido vivida por apenas alguns momentos.
E quando o futuro parece ter se tornado presente, é que sinto falta daquele prodígio de 17 anos.
Apenas 17 anos.
E procurando respostas, eu ultrapassava a barreira do permitido para um garoto de 17 anos. Barreira esta que pra mim era invisível, pois estava num contínuo processo de aprendizado. E não ter liberdade era limitar meu conhecimento.
Aos 17 anos eu podia quase tudo. Desejava chegar aos 18 para não ter mais as limitações da idade. Ou da falta de idade. Embora deva admitir que a irresponsabilidade fosse exercida com uma preocupação menor. "Eu só tenho 17 anos, afinal". Era sempre meu álibi.
De posse de minha carteira de identidade, que indicava na data de nascimento que eu possuía apenas 17 anos, fui barrado em alguns lugares, mas minha sagacidade típica dos 17 anos logo me fez descobrir o uso prático do termo "falsidade ideológica". Ainda que o rosto me denunciasse às vezes.
Sem pretensão alguma, descobri talentos que não imaginava ter. Resolvi expô-los aos olhos do mundo, ainda inseguro pela inexperiência. E fui bem recebido, até com ceticismo. "Mas você só tem 17 anos? Duvido!" Não ousava retrucar, tomava como elogio. Elogios sempre precedidos da seguinte frase: "Thiago Fialho, de apenas 17 anos..". Elogios que, acumulados, inflavam-me o ego, tornavam-me até um pouco pedante em alguns momentos.
“Venha cá, quero apresentar-lhe o responsável por aquele blog famoso”. “Ah sim, o garoto de 17 anos?”. Com apenas 17 anos, realizar sonhos só exigia esforço. Pois não eram impossíveis, só precisavam de tempo. E tempo não me faltava, ao que resolvi desperdiçá-lo sem tomar consciência do desperdício. "Coisa de adulto neurótico", pensava.
Passado o primeiro momento de excitação, vi que nada tinha de genial. Com 17 anos, até o que fazia de medíocre parecia extraordinário. Receava que a exaltação não viesse pelo talento, mas pela idade. "Você tem futuro!", era o que me diziam. Desejei, então, que o futuro chegasse o mais rápido possível. Que meus 17 anos ficassem pra trás, pois decerto aos 20 eu finalmente atingiria meu ápice do sucesso e estaria à altura das pessoas de mais idade. Passei a odiar ser tão jovem, um mero adolescente. Pedi que o tempo não demorasse a passar.
Eu tinha 17 anos. Apenas 17 anos.
Somente 18.
Nada mais que 19.
20, ainda.
*
21. Vinte e um.
A irresponsabilidade já não é apropriada pra minha idade. Trabalhar não é desejo ou opção, é obrigação. "É preciso ser alguém na vida!". O que seria eu, então? Sob olhares de reprovação, falam-me até em necessidade de contribuir com a sociedade, mas preocupar-me só comigo já tem sido uma dura tarefa. Há quem chame de egoísmo, egocentrismo. Mas como ajudar ao próximo deixando de lado a si próprio?
Minha auto-estima se tornou dependente de louvores pra não passar fome, quase ameaçada de despejo quando por ocasião dos piores momentos de amargura. Já não há tanta exaltação dos meus feitos e o razoável é apenas razoável, não é distorcido. Buscar respostas não é mais mera satisfação da curiosidade, é a salvação do risco da ignorância.
O agora ganhou mais peso que o amanhã e a esperança deu lugar à aflição. Se antes a dúvida era quando meu futuro glorioso iria chegar, hoje o que me ocorre é o medo e a vontade de nem perguntar: "O que será de mim?".
21 anos.
Que me lembram..
Os sonhos não conquistados.
Os amores postergados.
A vida em sua plenitude, que, em alguns momentos, parece ter sido vivida por apenas alguns momentos.
E quando o futuro parece ter se tornado presente, é que sinto falta daquele prodígio de 17 anos.
Apenas 17 anos.


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