quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Breve explicação do inexplicável

Declarações de amor.. Quem nunca as fez? Nem sempre sinceras, certamente, mas inevitáveis. Ao menos em algum momento da vida. Eu tenho um amigo que vivia escrevendo sobre uma tal "Amanda". Pensava que fosse sua namorada, mas essa "Amanda" continuava a ser retratada, mesmo após vários namoros e separações. Então perguntei pra ele "Quem é, afinal?". E ele me disse que "Amanda" não existia, que este nome representava os amores de sua vida. Pois bem, "Lia" é isso pra mim. Nunca conheci nenhuma Lia. Mas uso este nome para retratar todas as mulheres que, em algum momento, deram-me inspiração para escrever muitos destes textos. E o texto abaixo fala sobre isso que, de tanto se ouvir por aí, não raramente soa piegas.

Breve explicação do inexplicável


Uma vez, há muito tempo atrás, vi uma cena que prendeu toda minha atenção. Estava caminhando pelo parque, junto com alguns amigos. Ali perto, diante de meus olhos, um casal passeava de mãos dadas. Os dois estavam nitidamente felizes e espalhavam esta felicidade por onde passavam. Havia várias pessoas em volta, mas parecia que, para eles, ninguém mais estava ali.

Eram únicos e só tinham olhos um para o outro. Surgiu, então, à minha frente, "Romeu", meu lado romântico, que nomeio assim pra fazer uma certa graça. E cuja existência eu desconhecia até então. Descrevendo-me aquela cena, vestido tal qual o personagem clássico de Shakespeare, disse-me: "Vê? Lhe apresento este ilustre desconhecido! O Amor! Um dia você ainda irá conhecê-lo melhor!". E fiquei pensando, desde então, como este tal de amor surgia, aparentemente sem razão, quando menos se esperava e passava a fazer parte da nossa vida.

Ocorreu-me escrever sobre ele, tentar explicá-lo. Mas não se fala sobre o que não se conhece. Passei então a pesquisar, tentando descobrir algum significado, ou sua obscura origem. Abri o dicionário. "Amor: Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso”. Nas palavras de Luís Vaz de Camões: "O amor é fogo que arde sem se ver”. No desejo expresso em poesia de Vinicius de Moraes: "Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure". Nas canções do Jota Quest: "O amor é o calor".

Perguntei para amigos. "Amor é quando você vai pra cama com uma menina e passa a amá-la. Tanto que dizem que fazer sexo é fazer amor”. Quis saber a opinião feminina, que tinha certa resignação. "Amor é aquilo que só se vê nos filmes. Não existe na vida real”. Diante de tantos comentários distintos, eis que surge Romeu novamente: "Pra saber o que é, você precisa sentir". E não se pode explicar? "No fundo, talvez não tenha explicação”. Minha missão agora era "sentir". Corri atrás. Buscava quase desesperadamente ser agraciado com esse sentimento.

Conheci uma garota. Marina. Tão bonita e encantadora. Eu a queria. Ela me queria. Pronto, "devo ter achado o que buscava", pensei. Entre beijos, abraços e um certo nervosismo por nunca ter experimentado aquilo, pensava, aliviado: "Estou amando”. Pouco menos de 12 horas me mostraram que o certo era incerto. No dia seguinte, só havia lembranças do contato físico. Parecia não sentir nada especial. "O amor não é só isso, é?". Insatisfeito, prossegui na minha busca. Devia ter me enganado.

Conheci outra menina. Patrícia. Dessa vez o coração batia. Eu a queria. E ela.. Bom, ela não me queria. Mas o amor não deveria ser sempre recíproco? E, se ele existe, porque é tão malévolo assim? Não deveria me deixar feliz como aquele casal que avistei tempos atrás? Com tantas perguntas sem resposta, sofria, ouvia música na medida certa pra sustentar o sofrimento, lamentava. E até sonhava. Podia ser tudo mentira. Ela podia gostar de mim e só fingir que não. Podia, não podia? Tive minha primeira decepção. Mas não desisti, fui à luta.

Veio então Carina, que dizia me amar, mas por ela eu nada sentia, nem sequer a conhecia. A tal da paixão platônica. Sabrina procurava um amor pra vida inteira, mas percebeu que por mim não surgiria. "Melhor manter a amizade", era o que dizia. Uma desculpa que sempre cabe diante do desinteresse. Avistei em Melissa a chave para as minhas respostas. Mas Rodrigo viu o mesmo e, bem, não havia lugar para nós dois. Desisti. Aprendi a lição e mandei o amor pro 5º dos infernos. Esperei pelas borboletas do poema de Mario Quintana.

Até que conheci a Lia. E, desde então, procurava seu rosto em todos os lugares, quase sempre sem sucesso. Imaginar estar diante dela era suficiente pra incitar o meu nervosismo e fazer-me praticar a coragem. Até quando a iluminação baixa, misturada ao fato de que sou um péssimo fisionomista, me pregava peças.

- Lia! Tudo bem?
- Meu nome é Carla!

Que raiva das semelhanças!

Mas, certo dia, meus olhos a descobriram, em alguma festinha. De tanto observá-la, passei a entender o significado de "amor platônico". Num barzinho lotado, eu olhava ao meu redor e não havia mais ninguém além dela. A coragem de outrora se esvaiu. Imaginava estar a poucos metros da maior de todas as privações que poderia ter. Mas o meu lado romântico, o "Romeu", me conduziu e preparou meu discurso. Com certa ajuda de alguns goles de álcool.

- Oi Lia! Aceita um drink?
- Uma bebida não acrescenta nada na minha vida. Mas aceito, se puder me oferecer algo além disso.

Suspirei e confessei.

-  Olha, Lia.. Eu já não acredito em amor e talvez duvide da sinceridade dessa paixão que penso ter por você. Mas queria lhe ter ao meu lado.
- Pois eu busco alguém romântico, fiel, digno. Se não tem essas qualidades, nem me ofereça este drink. De cafajestes estou farta. Quero seguir a direção contrária, porque nesse caminho já sei o que me espera.
- Embora incrédulo, sou essencialmente romântico. Caminhos errados também deixaram marcas aqui dentro. E do coração só me sobrou metade.
- Não quero um amor pela metade!
- Mas é o que posso te oferecer. O inteiro da metade.
- E a outra parte ficou guardada com alguém?
- Receio que sim...

Veio o silêncio e um instante que parecia interminável. Mas olhando nos meus olhos, ela continuou.

- Pois vamos reavê-la juntos. Sinto que posso gostar de você também.
- Isso é um "sim"?
- É metade de um "sim".
- É sério? Continuo cético! Seria um sonho? Que significado teria este sonho?
- Não procure por significados, apenas sonhe. Nem tudo na vida precisa fazer sentido.

Então, quando menos esperava, eis que finalmente terminei minha busca. Senti de novo algo estranho, mas que agora era completo. As borboletas, enfim chegaram, e foram direto para o estômago. Um beijo diferente de todos os outros já experimentados impediu-me de fazer mais alguma indagação. E as respostas que busquei no passado, já não encontravam perguntas ao seu dispor.

Podia ser Marina. Podia ser Patrícia. Podia ser Carina, Sabrina, Melissa. Não foi. Foi Lia que me fez sentir o sujeito mais feliz do mundo, mesmo nos dias em que os problemas se acumulavam de uma forma que pareciam insuperáveis. Lia me tirava o peso de todos eles com apenas um sorriso.
Sinto que o melhor de tudo é poder usar essas frases no presente. Porque hoje, graças a ela, posso dizer que sei o que é o amor.

..

Sei.
Só não sei explicar.

"Que seja infinito enquanto dure”.

2 Comentários:

Blogger Felipe Drummond disse...

fantástico, adoro seus textos.

vou te linkar.

4 de janeiro de 2007 às 21:19  
Blogger Nattércia Damasceno disse...

À vontade estou.
Lugar receptivo.

8 de janeiro de 2007 às 07:32  

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