segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Eu vi um fantasma

Eu vi um fantasma. Não que acredite em fantasmas, mas eu vi. Na sala de aula ele surgiu, passando pela porta. Nossos olhares se cruzaram. E tive a reação esperada de quem passa por uma situação assim. Fiquei pálido, com as mãos trêmulas. Mal conseguia terminar de escrever as anotações no caderno. Senti medo. Tentei me esconder, tentei me acalmar. Vi que não conseguiria. E então fugi. Tentando disfarçar, tentando fingir que nada acontecia. Caminhando a passos tétricos, acelerados gradativamente. Quase em pânico, cheguei na biblioteca. Fui para a sala de informática, tentar encontrar a distração na tela do computador.

Olhei as pessoas em volta e notei que estavam todas tranquilas. Exatamente como eu deveria estar. Procurei uma coisa qualquer na internet, mas olhar para trás de 10 em 10 segundos, para certificar-me de que o fantasma não estava por perto, era algo que não conseguia evitar. E fiquei por ali, sob os olhares curiosos do sujeito do balcão, das meninas sentadas à mesa mais próxima. "O que houve com você, viu um fantasma?". Quase me perguntaram. Não podia fugir para sempre, precisava voltar e enfrentar o que me trazia medo. A covardia ainda não me dominava completamente. Fui até o banheiro, vazio. Apaguei as luzes, abaixe-me e sentei no chão, próximo ao vaso sanitário, e fiquei por alguns minutos assim, sem reação. Olhei para o relógio, vi o horário, e tive um resquício de coragem. Levantei-me e fui caminhando lentamente, até chegar perto da sala de aula. Aproximei-me da porta da sala, pensei em abrir. Desisti. Não demorou muito, avistei a porta novamente, e desta vez abri.

Fui andando, com um pouquinho de coragem que restou, até chegar onde deveria. O fantasma não estava mais lá. Sem conseguir me concentrar na aula, saí dali novamente, um pouco mais tranquilo.

*

Chegando em casa, entrei no meu quarto, abri a gaveta do armário. Tirei dali cartas, presentes, fotos. Lembranças. Daquela que foi uma das épocas mais bonitas da minha vida. Bons momentos com ela, relembrados ao abrir aquela gaveta. Noites em claro, telefonemas, declarações de amor, tardes no parque, festas. Registros do que um dia pareceu ser eterno, escondidos ali, esperando pelo esquecimento completo, que pudesse transformar aquilo tudo em lixo. Passados alguns minutos de contemplação e saudosismo, fechei a gaveta.

Senti medo, novamente.
Medo de sentir tudo outra vez.

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